Podia ser pior
Martha Medeiros
Minha mãe me informava ao telefone, no sábado passado: "Tu não pode imaginar o inferno que está o tempo aqui. Não pára de chover". Enquanto isso, do outro lado da linha, eu estava tomando uma caipirinha de frente para o mar azul da Praia do Rosa, em Santa Catarina. Mas, aqui se faz, aqui se paga: o avião que me trouxe de volta do paraíso, no domingo, não conseguiu pousar no Salgado Filho. Ficou sobrevoando mais de uma hora a cidade cinza, molhada, enquanto os relâmpagos e outras rabugices da natureza não nos autorizavam a descer.
Foram várias voltas acima das nuvens, num trajeto circular e monótono, aguardando uma brecha que não se abria. E eu ali, na janelinha, espiando o nada, meio tonta, cansada, mas com raiva nenhuma, porque resolvi adotar para minha vida o método "podia ser pior" de conformidade.
Por exemplo, quando leio sobre a Operação Navalha (que investiga as ligações do governo com as empreiteiras), sobre a Operação Xeque-Mate (que investiga a máfia dos caça-níqueis), sobre a ligação de Renan Calheiros com a construtora Mendes Junior, sobre as confusões envolvendo o irmão do Lula e mais uma centena de eteceteras, penso: podia ser pior. Podia a gente continuar sem saber de nada, como era tempos atrás, quando tudo isso acontecia com a mesma regularidade e cara-de-pau, só que sem a contribuição inestimável da "escuta telefônica", que, se não ajuda a punir ninguém, ao menos salva o país do tédio e da alienação.
Sendo assim, o que há de tão terrível em ficar sobrevoando a cidade onde você mora e ter que ouvir o comandante dizer que, infelizmente, não há mesmo como aterrissar e que teremos que voltar ao aeroporto onde embarcamos? Podia ser muito pior. Podia este mesmo voo ter saído com atraso (não saiu), podia o check-in ter durado longas horas, podia eu estar retornando de um lugar ainda mais chuvoso e não de um feriadão ensolarado, podia eu ter um compromisso inadiável me aguardando, podia o Clodovil ter sentado ao meu lado no avião e ter protagonizado mais um de seus pitis deprimentes, podia eu ter uma conexão pra pegar em seguida, mas nada disso aconteceu. Foi apenas um contratempo, não uma tragédia.
Tragédia, além das que fazem aviões vir abaixo na marra, são as que fazem pessoas virem abaixo, como um ex-funcionário da Varig que me escreveu desesperado porque trabalhou na empresa por 30 anos, aposentou-se e, agora, perto dos 70 anos, precisa enfrentar o fato de que nada mais irá receber do fundo previdenciário, por questões legais ainda insolúveis entre Varig e governo federal. Mas ninguém fala mais em Varig, e parece que todos aqueles funcionários que ficaram sem trabalho e sem renda nunca existiram.
Enquanto eu ficava olhando, da janelinha, Porto Alegre aparecer lá embaixo entre frestas de nuvens, inacessível, alagada e triste, confirmei que eu tinha era muita sorte de seguir sobrevoando os problemas que se concentram aqui embaixo, nos saguões de aeroportos, de hospitais, de escolas, de universidades, de repartições públicas e dentro das casas das pessoas, onde tanta gente não consegue aterrissar - nunca - numa vida mais decente.
Podia ser pior, e geralmente é.
Domingo, 17 de junho de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.